domingo, 27 de março de 2011

Como foi e como é


O tempo deixou de ter presente e passado, tornou-se um bloco único O futuro não se deseja. As pessoas e as histórias já não se encontram onde deveriam estar. Deixaram de existir cortinas que filtrem as palavras, que soletramos com dificuldade. Queremos dizer uma coisa, porém num atropelo sem nexo surje algo distinto. Olhamos em redor e o espaço de repente perde sentido. Onde estamos? Esta não é a minha casa. Não havia um quadro pendurado naquela parede? Quando se desconectam algumas ligações deixamos mesmo de identificar os que nos são próximos, por isso desconfiamos e manifestamos o nosso desconforto com agressividade. Gostariamos de recordar o passado, contudo já não o conseguimos. Precisamos de ajuda para nos guiar e fazer encontrar os caminhos certos nas nossas recordações.

Ao escrever este texto tenho como principal preocupação preservar as memórias da minha mãe que se vão apagando, fruto do progresso da doença de Alzheimer. Um dia também poderá chegar a minha vez de começar a esquecer um período da minha vida, passado em Angola, durante o regime colonial, mais precisamente nas décadas de sessenta e setenta, ao qual associo sabores, odores, pessoas, objectos, todos eles interligados através de pequenos episódios. Nem sempre as conexões parecerão óbvias e lógicas a outros olhares, mas é essa a singularidade que procuro atingir.

Não sei se são as receitas da minha mãe que estão na origem do que vos conto ou se elas são apenas uma desculpa para escrever. Procuro, num exercício de introspecção, voltar a mergulhar numa época a que associo doces e salgados sabores. Esta última expressão tem origem num livro que a minha mãe publicou quando viveu no Brasil, intitulado “Portugal em Doces e Salgados”. Sempre desejou voltar a reeditá-lo depois de regressar a Portugal, porém o projecto não se concretizou. Por isso cabe-me a mim dar-lhe continuidade neste espaço e num outro a que designei por As receitas da minha mãe. O significado que aqui atribuo à expressão – doces e salgados sabores, vai para além da literalidade com que podem ser interpretados estes dois termos. Prefiro decliná-los na forma de bons e de maus momentos. Se por um lado registo os doces sabores de infância e da adolescência, ancorados em momentos de despreocupação e de lazer em que a passagem do tempo ainda assumia um significado diverso daquele que a maturidade introduz, julgo necessário não esquecer que nesse período decorria uma guerra que deixou sequelas mais ou menos profundas.

Escrever sobre as vivências do período colonial continua a ser um processo difícil para a minha geração. Alguns já se atrevem a fazê-lo, sem pudores e sem receios. No meu caso pretendo deixar que as minhas memórias fluam de forma livre, apenas limitadas pela privacidade que entendo dever manter nalguns aspectos. Por instinto, procuro as ocasiões felizes, mas os momentos menos bons também emergem aqui e além quando penso nalgumas das receitas que a minha mãe preparava. Importa, isso sim, captar a fugacidade de alguns acontecimentos e reter os aromas e as cores que os envolveram e tornaram memoráveis. É assim que surge a receita do pudim de gemas gelado que associo a um jogo da MAJORA.

Não recordo quando me foi oferecida uma caixa de massa para modelar com o título pomposo de “A pequena cozinheira. Na tampa da caixa de cartão, sobre fundo azul claro, destaca-se uma menina loira, com um grande laçarote no cabelo, vestida de cor-de-rosa e com um avental branco. Na mão esquerda suporta um prato sobre o qual se visualiza um bolo com duas camadas, coberto por glacé rosa e com uma cereja no cimo a enfatizar a altura. À sua frente estende-se o tampo da mesa de cozinha onde o bolo teria sido acabado de preparar. Há farinha espalhada e uma série de objectos de uso culinário dispersos.

No interior da caixa encontram-se plasticinas de várias cores, acompanhadas com os referidos instrumentos de cozinha em miniatura e ainda com sugestões para a realização de alguns “bolos”, apresentadas na forma de desenho. Curiosamente, passado mais de quarenta anos, o meu primeiro blogue de culinária teve como designação - A minha cozinha. Premonição ou simples coincidência? A verdade é que sempre vivi num universo em que a cozinha e todas as preparações que ali decorriam, desempenhavam um papel central. Quando revejo álbuns de fotos antigas, quase que de forma invariável encontro fotografias tiradas à mesa, em que não são os convivas os protagonistas principais, mas sim as travessas arranjadas dispostas sobre mesas cobertas com toalhas bordadas e de renda.

Encontrei esta caixa há pouco tempo, num caixote onde os meus pais colocaram os brinquedos que sobraram da minha infância e que não foram perdidos nas inúmeras viagens e mudanças de casa que caracterizaram esse período. Quando a volto a abrir descubro na contracapa da tampa a seguinte afirmação: “Todas as crianças, especialmente as meninas, gostam de fazer cozinhados. Para elas criou a MAJORA este interessante brinquedo composto por: massa de modelar, formas, faca e rolo giratório. Para facilitar os trabalhos, fornece-se também um cartão hidráulico, bem como alguns modelos coloridos de especialidades que se podem fazer. Com efeito, com todo este material podem-se fazer vários tipos de bolos, biscoitos, pudins, etc., conforme os modelos acima referidos, e ainda todos aqueles que a imaginação da criança idealizar”. A leitura deste texto remete de forma inequívoca para um universo cultural onde a elaboração de bolos era uma tarefa feminina. Porém, o que julgo ser mais fascinante nas imagens que acompanham as plasticinas é a atribuição de um formato distinto a cada tipo de doces. Deste modo é possível abstrair-nos da composição e do próprio processo de fabrico, para nos centrarmos apenas no formato externo dos bolos ou dos biscoitos como elemento possuidor de significado. É curioso pensar na questão desde esta perspectiva. Só um brinquedo infantil nos poderia conduzir a este nível de simplicidade, que na verdade nos remete para problemas de representação da realidade. De repente recordei-me do filósofo Nelson Goodman que afirma não ser possível representar qualquer objecto na plenitude das suas propriedades. É pena que assim seja, pelo menos no universo gastronómico.

Ao olhar para os modelos sugeridos fui quase que impelida para um pudim amarelo, certamente de ovos ou de laranja, que se eleva de um prato branco de porcelana. Se pensarmos na evolução da nossa alimentação, diária ou dos dias de festas, apercebemo-nos que algum do receituário caiu em desuso ou tornou-se residual no mundo das cozinhas de autor, com carácter minimalista. Penso que foi o caso dos pudins. Recordo que estes eram um doce com que frequentemente se terminavam as refeições em dias de festa ou quando havia visitas. Levavam sempre um número elevado de ovos e algumas vezes precisavam de ser cozinhados em banho-maria. Assim, resolvi olhar para os pudins que a minha mãe tem no seu livro - Portugal em doces e salgados, aos quais chega mesmo a dedicar um capítulo, e escolhi um deles - o pudim de gemas gelado.

A receita original refere como ingredientes: 300 g de açúcar, 14 gemas de ovos e 1 colher de sopa de Vinho do Porto. Ao açúcar juntava-se um pouco de água e era levado ao lume até atingir ponto de espadana. Depois retirava-se e deixava-se arrefecer. Juntavam-se então as gemas bem batidas e o Vinho do Porto. A seguir esta mistura era colocada numa forma bem untada de manteiga e depois ia a cozer, no forno, em banho-maria. Estando pronto, desenformava-se e deixava-se arrefecer. Enfeitava-se com chantilly e cerejas cristalizadas ou de calda. Levava-se à geladeira, um modelo de marca americana que funcionava a petróleo, porque ter luz eléctrica durante as vinte e quatro horas era um luxo reservado que Angola esteve durante muitos anos reservado apenas às grandes cidades. Era assim!

Esta receita é o meu contríbuto para o "Conte-me a sua Receita" organizado pelo Cinco Quartos de Laranja.

12 comentários:

  1. Fa,
    foi um enorme prazer ler o seu texto.
    Obrigada por esta excelente participação.
    Um beijinho.

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  2. Olá, Belinha
    Se é gulosa vai gostar deste pudim. É muito bom! bjs

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  3. Olá, Laranjinha
    Nem sempre consigo participar em todos os desafios, mas achei que este não poderia perder. Resolvi recuperar um texto já escrito e que estava preparado para outros objectivos, juntando-o a uma entrada do meu outro blogue - As receitas da minha mãe, a que não tenho dado continuidade nos últimos tempos.
    bjs

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  4. Uma participação cheia de história, de memórias felizes que têm de prevalecer nas horas mais difíceis. Mais do que premonição, esse belo jogo da majora. Que veio a dar origem a um dos blogs de que mais gostava, o "A minha cozinha" e agora este das "nossas" cozinhas e o das memórias de África...
    Um beijo muito amigo. Consigo.
    Babette

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  5. que bela historia e mais bonita a sobremesa:-)

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  6. Um texto tão belo, aqui à espera. Só o li hoje. Dias atribulados, os meus. Mas tão bom chegar aqui. E haver a Fa. As memórias da Fa. A sua mãe. A cozinha no centro de tudo. Uma bela maneira de dizer o passado, tornando-o agora. Comer agora um pudim gelado que era parte do passado. Obrigada a si. E obrigada à Laranjinha, pela ideia que teve. Pelas coisas muito lindas que motivou.

    Um beijo com carinho para si. Pelo seu texto. Escreveu tão bem a saudade, sabia?

    Mar

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  7. Obrigada, Babette
    Eu sei que está sempre desse lado ... pode acreditar que é uma companhia importante. Já há quem pergunte o que é que a Babette disse sobre determinada receita. bjs

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  8. Olá, Moranguita
    Se é gulosa como aparenta ser digo-lhe o mesmo que já referi à Belinha - este pudim, com poucos ingredientes, é muito, muito bom.
    bjs

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  9. Olá, Mar
    Obrigada pelos seus comentários. Como já lhe disse sou muito céptica sobre as minhas capacidades a nível da escrita. E isto é verdade! Porém, sempre desejei ser capaz de escrever bem para poder descrever por palavras as pequenas histórias que ocorrem à minha volta. Acho que me expresso melhor com a imagem. Contudo, nem esta área tenho tempo para desenvolver. bjs

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  10. Fa:
    Fiquei a conhecê-la um pouco mais! Quero dizer-lhe que escreve muito bem e...mais do que isso...escreve sobre coisas lindas como sejam as suas memórias. As que um dia se poderão esbater, daí ser importante o registo de agora. São um grupo amigo a Fa, a Babette , a Mar, e todos os que aqui passam a tentar colorir o tempo em que vivem sem ser com a enorme desesperança em que o País se encontra mergulhado. Bem hajam!
    Beijinho neste dia já de Abril!

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  11. Olá, Lusitana
    Obrigada pelas palavras que aqui deixou. Concordo consigo relativamente à "enorme desesperança" em que o País se encontra. Gosto de assistir a programas informativos e de debate, mas às vezes fico com a sensação que alimentams um prazer quase que diria mórbido pelo abismo.
    Talvez o que esta crise venha a ter de bom seja a redescoberta de outros valores, diria mesmo de outras formas de olhar o mundo, que passa pela valorização dos pequenos objectos e eventos do dia a dia, que a nossa amiga Mar tão bem descreve.
    bjs

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